Discurso de Paraninfo
Ser professor é tenso... mas tem dia que vale MUITO a pena.
Hoje, dia 04/02/2026, será a formatura das turmas de design e comunicação do Instituto de Educação Superior de Brasília - IESB, onde eu tenho o privilégio de lecionar para esses cursos.
Curiosamente, a turma me escolheu como paraninfo. Eu, um professor com pouca experiência, pouca autoridade, pouco título e pouca paciência pra essa pompa que a educação superior exige.
Mas eu sou o maior fã dos meus alunos, então, não poderia deixar de aceitar o convite e fazer o melhor discurso que eu conseguir. Então, resolvi publicar aqui também. Espero que essas palavras possam tocar alguém da mesma forma que a educação me tornou professor.
Obrigado, meus queridos alunos
Boa noite a todas as pessoas aqui presentes.
Magnífico Reitor, Professor Dr. Luiz Cláudio Costa e Mantenedor Edson Machado Filho, na figura dos quais cumprimento todos os membros da mesa dessa outorga de grau.
Pais, mães, familiares e amigos.
Queridos formandos.
Ser professor é um ato de fé.
E, às vezes, um ato de inconsequência também.
Fé, porque, acreditamos que cada aula — mesmo aquelas claramente amaldiçoadas pela logística, pelo sono coletivo ou até por um projetor que insiste em não obedecer — ainda possa tocar alguém.
E inconsequência porque nós, professores, seguimos tentando, mesmo quando sabemos que tentar é sempre arriscar um fracasso.
Mas tudo bem.
A educação, no fim das contas, é feita disso: de tentativa. Medidas que não cabem no boletim, percursos que nem sempre dão certo, mas que transformam a gente por dentro.
E é isso que eu vi em vocês ao longo do curso.
Vocês tentaram.
Tentaram apesar do medo, da pressa, dos trabalhos, das noites viradas, do estágio, dos prazos que chegavam antes da inspiração.
Tentaram mesmo quando parecia demais — e às vezes era mesmo.
Às vezes era demais.
E, tentando, vocês cresceram.
E nos fizeram crescer também.
Porque o trabalho de vocês, seja no design, na comunicação, na publicidade ou onde mais forem existir daqui pra frente, é justamente esse: tensionar o mundo para que caiba mais gente nele.
Dar forma ao invisível, dar voz ao silenciado, dar sentido ao que parece caótico.
Não existe nada mais bonito que isso — nem mais difícil.
E é aí que eu volto ao começo: o tal do “fracasso”.
A gente vive num mundo que adora cobrar perfeição, mas odeia sustentar processos.
Vocês vão ouvir muito sobre metas, entregas, métricas, performance — e tudo isso importa, claro.
Mas não importa mais do que o risco necessário para fazer algo que realmente valha a pena.
Mas, cá entre nós, quando esse risco me assusta — e ele vai assustar vocês também — eu me lembro de uma fala de um professor que eu não tive o privilégio de ter, mas que, mesmo assim, me ensinou muito mais do que eu merecia.
Eu queria destacar a primeira parte dessa fala.
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.”
Para quem não reconhece essa fala, ela é de um dos patronos da educação superior brasileira. O Prof. Darcy Ribeiro. Doutor Honoris Causa pela Universidade de Sorbonne, na França, pela Universidade de Copenhagen, na Dinamarca e por diversas outras instituições, além de imortal da Academia Brasileira de Letras.
Quando Darcy enumera esses fracassos, ele não está pedindo desculpa — ele está afirmando um modo de existir.
Ele está dizendo, com todas as letras, que viver tentando já é uma forma de enfrentar o mundo.
E que, às vezes, tentar é o máximo que um ser humano pode fazer diante de estruturas tão grandes, tão antigas e tão teimosas quanto os problemas do nosso país.
E é aqui que a fala dele deixa de ser confissão para virar ensinamento.
Porque ele não fracassou por falta de esforço, de coragem ou de competência.
Ele “fracassou” porque escolheu se dedicar apenas a causas impossíveis: alfabetizar um país inteiro, proteger povos originários, reinventar a universidade, lutar por um Brasil soberano num mundo que não aceita isso facilmente.
Darcy só trabalhava no terreno do impossível — e o impossível, por definição, sempre oferece mais resistência do que resultado.
Mas é justamente aí que a chave vira.
Porque o fracasso, quando nasce do enfrentamento sincero do impossível, não é derrota.
É marco de passagem.
É cicatriz de quem ousou demais para caber no registro das vitórias comuns.
É o tipo de fracasso que a história, olhando de longe, reconhece como coragem.
E talvez seja isso que nós, professores, tentamos ensinar sem dizer diretamente:
Que vale mais a vida que tenta do que a vida que assiste.
Que vale mais a insistência do que a acomodação.
Que vale mais a obra inacabada do que obra nenhuma.
E é por isso que, depois de listar tudo o que não conseguiu fazer, Darcy fecha sua fala com a frase mais honesta — e mais altiva — que um educador já disse:
“Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
E é isso.
Que vocês sigam ousando a ponto de, um dia, poder dizer algo assim.
Que tentem com tanta dignidade, tanta coragem e tanta entrega, que até os tropeços virem parte da vitória.
E que ninguém — absolutamente ninguém — possa vencer vocês por desistência.
Parabéns, formandos.
Sigam tentando.
Sigam criando.
Sigam incomodando o mundo até ele abrir espaço.
Muito obrigado.
EDIT: 09/02/2026 - Bobagem minha achar que, na era do Smartphone, não ia surgir uma gravação, né? A Sophia Monteiro MOSZ Design, minha aluna querida, gravou essa pataquada toda, então, pra quem quiser ver, tá ai :D



Melhor professor de todos! Uma honra ter sido sua aluna 🫶🏻👏🏻